O tarifaço de Donald Trump é apresentado como sintoma de uma nova geopolítica, na qual o trabalho,a indústria e a inovação definem a força das nações.
O tarifaço imposto pelo governo Donald Trump contra
produtos brasileiros não deve ser interpretado
apenas como mais um episódio de protecionismo
comercial. Ele revela uma mudança estrutural da
economia mundial. Se o século XX foi marcado pela
geopolítica dos territórios, das matérias-primas e
da influência militar, o século XXI passou a ser
organizado pela geopolítica da produção, da
tecnologia e, sobretudo, do trabalho. Essa
transformação altera profundamente a maneira de
compreender o desenvolvimento.
Durante décadas, predominou a ideia de que o livre
comércio organizaria espontaneamente a divisão
internacional da produção, promovendo ganhos para
todos. Essa visão está sendo abandonada justamente
pelas maiores economias do planeta. Estados Unidos,
China e União Europeia mobilizam novamente, de forma
intensa e com recursos diversos, políticas
industriais, subsídios, crédito público, compras
governamentais, controle tecnológico, exigências de
conteúdo local e barreiras comerciais para disputar
investimentos, fortalecer cadeias produtivas e
atrair empregos de alta produtividade.
A competição internacional já não ocorre apenas
entre empresas. Ela ocorre entre projetos nacionais
de desenvolvimento. O tarifaço contra o Brasil deve
ser compreendido nesse contexto.
Sua justificativa econômica é extremamente frágil.
Os próprios dados oficiais do governo
norte-americano mostram que os Estados Unidos mantêm
expressivo superávit comercial na relação com o
Brasil, tanto em bens quanto em serviços. Não existe
desequilíbrio estrutural que justifique a adoção de
tarifas punitivas. O argumento econômico
simplesmente não se sustenta. A medida responde,
portanto, a uma lógica política.
Ao utilizar o acesso ao mercado norte-americano como
instrumento de pressão sobre outro país, os Estados
Unidos transformam o comércio internacional em
mecanismo de coerção. A mensagem implícita é clara:
quem não se alinhar aos interesses estratégicos da
maior potência econômica sofrerá restrições
comerciais unilaterais.
Essa prática representa um grave retrocesso para a
ordem internacional construída após a Segunda Guerra
Mundial. A estabilidade do comércio global depende
da previsibilidade das regras e do respeito à
soberania dos Estados. Quando tarifas passam a ser
utilizadas para constranger decisões políticas
internas de outros países, substitui-se o direito
pela assimetria de poder.
Trabalho no centro da geopolítica
Mas talvez a consequência mais importante seja outra. O tarifaço evidencia que a principal disputa contemporânea não é apenas por mercados. É pelos empregos.
Cada decisão sobre tarifas, subsídios, inovação
tecnológica, inteligência artificial, transição
energética ou reorganização das cadeias produtivas
determina onde serão realizados investimentos, onde
serão produzidos bens estratégicos e onde estarão
localizados milhões de postos de trabalho. O
trabalho voltou ao centro da geopolítica.
Durante muito tempo, economistas trataram o emprego
como consequência do crescimento econômico. Primeiro
cresceria a economia; depois surgiriam os empregos.
A realidade atual mostra exatamente o contrário.
Países organizam suas estratégias econômicas para
disputar capacidade produtiva porque compreendem que
ela determina renda, inovação, arrecadação
tributária, soberania tecnológica e influência
internacional.
Produzir significa dominar conhecimento. Dominar
conhecimento significa controlar tecnologia.
Controlar tecnologia significa decidir onde estarão
os empregos de maior produtividade. Em outras
palavras, o trabalho tornou-se um ativo estratégico
das nações.
É justamente por isso que o Brasil precisa responder
ao tarifaço de maneira muito mais ampla do que uma
simples disputa comercial. Naturalmente, o país deve
negociar com firmeza, recorrer aos instrumentos
multilaterais e manter disponíveis os mecanismos
previstos na Lei da Reciprocidade Econômica. Não por
espírito de retaliação, mas porque nenhuma nação
soberana pode aceitar passivamente medidas
unilaterais que prejudiquem seus trabalhadores e sua
capacidade produtiva.
A reciprocidade, entretanto, deve ser inteligente.
Seu objetivo não é ampliar uma guerra comercial nem
reproduzir a lógica do confronto permanente. Ela
deve elevar o custo político da medida
norte-americana, fortalecer a posição negociadora
brasileira e preservar, ao mesmo tempo, os
interesses da economia nacional.
Projeto nacional de desenvolvimento
Mais importante do que responder à tarifa é proteger quem será atingido por ela. Empresas exportadoras precisarão de crédito, financiamento e apoio para diversificar mercados. Trabalhadores precisarão de políticas de preservação do emprego, qualificação profissional e negociação coletiva capaz de construir soluções temporárias sem transformar uma redução conjuntural das encomendas em desemprego permanente. Todas medidas já adotadas pelo Brasil desde 2025 e que agora, mais uma vez, devem ser implementadas, continuadas ou ampliadas.
Entretanto, nenhuma dessas medidas resolverá o
problema estrutural. O verdadeiro desafio consiste
em reduzir a vulnerabilidade externa da economia
brasileira. Um país excessivamente dependente de
poucos mercados permanece sujeito às oscilações
políticas de seus parceiros comerciais. Uma economia
especializada em produtos de baixo valor agregado
continuará ocupando posição periférica nas cadeias
globais de produção. Uma indústria tecnologicamente
frágil terá dificuldade para disputar investimentos,
produtividade e empregos qualificados. Por isso, a
melhor resposta ao tarifaço não está apenas na
política comercial, e está na construção de um
projeto nacional de desenvolvimento.
Um projeto que combine reindustrialização, inovação,
transformação digital, transição ecológica,
fortalecimento do mercado interno, ampliação da
infraestrutura econômica e social, educação,
ciência, tecnologia e valorização permanente do
trabalho.
O desenvolvimento volta a exigir planejamento, exige
coordenação entre Estado, setor produtivo e
trabalhadores, política industrial, financiamento de
longo prazo, exige diálogo social. Sobretudo, exige
compreender que o trabalho deixou de ser apenas uma
variável econômica para tornar-se fundamento da
soberania nacional. Essa talvez seja a principal
lição do tarifaço de Trump.
O comércio internacional continuará importante. Mas
a grande disputa do século XXI já não ocorre apenas
nas fronteiras alfandegárias, ocorre na capacidade
de cada sociedade produzir conhecimento, agregar
valor, organizar suas cadeias produtivas e oferecer
trabalho de qualidade à sua população.
Na nova geopolítica do trabalho, defender empregos
significa defender produtividade. Defender
produtividade significa defender soberania. E
defender soberania significa construir um projeto
nacional capaz de decidir, com autonomia, onde o
Brasil quer produzir, inovar e trabalhar nas
próximas décadas.
Clemente Ganz Lúcio é Coordenador do Fórum das
Centrais Sindicais
Fonte: Rádio Peão Brasil - Do Blog de Notícias da CNTI
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