A
luta sindical deve ir muito além do contracheque, da disputa econômica.
Reduzir o Sindicato à mera negociação de salários é esvaziar sua
essência histórica. O sindicalismo nunca foi apenas ferramenta para luta
salarial.
Sempre foi, sobretudo, espaço de formação política,
organização coletiva e construção de consciência de classe,
independentemente de todo avanço tecnológico. Porque é mito que as
máquinas substituirão as pessoas, pelo menos integralmente.
Quando
limitado ao reajuste anual, o sindicato se torna mero prestador de
serviços. Quando cumpre sua função plena, transforma trabalhadores em
sujeitos políticos.
Escola de consciência de classe
O
Sindicato é, por natureza, uma escola. Não no sentido formal, mas como
espaço vivo de aprendizado coletivo. É ali que os trabalhadores
compreendem que sua condição não é individual, mas estrutural, coletiva.
A
consciência de classe não nasce espontaneamente. Essa é construída,
mediado: no e pelo debate, na mobilização, na troca de experiências.
Ao
reconhecer interesses comuns, o trabalhador deixa de se ver como
indivíduo isolado e passa a se enxergar como parte de uma força social.
Essa virada é decisiva: sem essa, há reivindicação; com essa, há projeto.
Formação política como estratégia
Experiências
acumuladas por entidades como o Diap (Departamento Intersindical de
Assessoria Parlamentar), Dieese (Departamento Intersindical de
Estatística e Estudos Socioeconômicos) e Diesat (Departamento
Intersindical de Estudos e Pesquisas de Saúde e dos Ambientes de
Trabalho) mostram que a formação sindical vai muito além da prática
imediata.
Cursos, seminários e debates sobre economia, legislação
trabalhista, história social e conjuntura política qualificam dirigentes
e bases. Não se trata apenas de informar, mas de formar – de
desenvolver capacidade crítica – para interpretar o mundo e agir sobre
esse.
Sem essa dimensão, o sindicalismo se torna reativo. Com consciência de classe, torna-se estratégico.
Democracia que se aprende na prática
As
assembleias sindicais são, muitas vezes, o primeiro espaço real de
exercício democrático para milhões de trabalhadores. Ali se debate, se
diverge, se vota e se decide coletivamente.
Esse processo educa
para a cidadania ativa. Ensina que democracia não é apenas votar a cada 4
anos, mas participar, deliberar e assumir responsabilidades.
Num país de tradição autoritária, como é o caso do Brasil, essa pedagogia prática tem valor inestimável.
Disputa de poder e hegemonia
O
sindicalismo também atua na arena mais ampla da sociedade. Não apenas
reage às políticas públicas, mas busca influenciá-las. Organiza
mobilizações, pressiona o Legislativo, dialoga com o Executivo e
participa de conselhos institucionais. Realiza eventos para a categoria
profissional e econômica. Organiza o trabalhador para fazer luta
coletiva.
Trata-se de disputar hegemonia: no sentido de construir
visão de mundo capaz de orientar políticas e decisões. O sindicato,
nesse contexto, deixa de ser apenas defensivo e passa a ser propositivo e
organizativo.
É nesse ponto que a luta econômica se conecta à
luta política, que tem várias dimensões: eleitoral, social, mudancista,
emancipatória.
Novas agendas, velhos desafios
O
mundo do trabalho mudou. E o sindicalismo precisa acompanhar essa
transformação. A chamada “4ª Revolução Industrial”, que trouxe consigo a
precarização, a plataformização e os novos formatos de emprego e
trabalho que exigem atualização constante.
Ao mesmo tempo, pautas
como igualdade de gênero, combate ao racismo e sustentabilidade ampliam o
escopo da atuação sindical. Não se trata de dispersão, mas de
reconhecer que a exploração assume múltiplas formas.
A luta continua sendo de classe. Mas suas expressões são mais complexas.
Entre a burocracia e a transformação
O
maior risco para o sindicalismo contemporâneo é a burocratização.
Quando se afasta da base e se limita à rotina institucional, perde
legitimidade e capacidade de mobilização.
Por outro lado, quando investe em formação, organização e consciência, sobretudo a de classe, recupera sua potência histórica.
O sindicato pode ser cartório ou pode ser escola. Pode administrar demandas ou pode formar sujeitos políticos.
Papel que não pode ser abandonado
Num
país marcado por desigualdade estrutural – desequilíbrios e injustiças
sociais crescentes – o sindicalismo continua sendo uma das poucas
instituições capazes de articular interesses coletivos a partir da base
social.
Mas isso só será possível se assumir plenamente seu papel
formador. Se voltar a ensinar, organizar e politizar. Se compreender que
salário é apenas o começo, nunca o fim.
Sem consciência, não há
transformação. E sem sindicato como escola de política, os
trabalhadores, como classe social, permanece fragmentada, vulnerável e
facilmente capturada.
O desafio está posto: ou o sindicalismo retoma sua vocação histórica, ou será reduzido a mero intermediário de perdas.
Marcos Verlaine. Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do jornal Hora do Povo.