Mobilização nacional das
centrais pressiona por votação ainda neste semestre. Proposta
“alternativa” articulada por Rogério Marinho perde assinaturas e
enfrenta forte rejeição social
A batalha pela redução da jornada de trabalho e pelo fim da escala
6×1 entrou em semana decisiva no Senado Federal. Enquanto as centrais
sindicais intensificam a mobilização nacional para garantir a aprovação
da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) 221/19 já aprovada pela
Câmara dos Deputados, a proposta “alternativa” — PEC 12/26 — patrocinada
por setores da oposição, sobretudo a bolsonarista, e do empresariado
começa a perder sustentação política.
O movimento sindical definiu, em reunião virtual nesta segunda-feira
(8), estratégia de pressão direta sobre senadores nos estados e em
Brasília, apostando na mobilização popular para assegurar a votação da
matéria ainda antes do recesso parlamentar de julho.
A definição do caminho que a proposta seguirá no Senado deve ocorrer
nesta terça-feira (9), quando o presidente da Casa, Davi Alcolumbre
(União-AP), se reúne com líderes partidários para discutir a tramitação
da PEC e indicar sua relatoria.
Para as centrais, trata-se de janela política rara. A proposta
aprovada pela Câmara já chegou ao Senado respaldada por forte apoio
popular e pelo desgaste crescente da escala 6×1, considerada por
sindicatos e especialistas modelo incompatível com as transformações do
mercado de trabalho e com as demandas por qualidade de vida.
Sindicatos ampliam pressão
Reunidos em plenária virtual, nesta segunda-feira, mais de 500
dirigentes sindicais aprovaram o calendário nacional de mobilização.
A orientação é intensificar visitas a gabinetes parlamentares,
promover atos públicos, distribuir materiais informativos e ampliar o
uso da plataforma de pressão digital que permite aos trabalhadores
enviarem mensagens diretamente aos senadores.
O objetivo é construir os 49 votos necessários para aprovar a mudança constitucional em 2 turnos no Senado.
Também ficou definida a participação das centrais na sessão temática
marcada para o próximo dia 24, quando o tema será debatido no plenário
da Casa.
Segundo o senador Paulo Paim (PT-RS), um dos principais defensores da
proposta, existe movimento crescente entre parlamentares para acelerar a
tramitação.
“Somente com muita mobilização nas redes e nas ruas conseguiremos
aprovar a redução da jornada ainda este ano. Não podemos permitir
retrocessos”, afirmou.
Os números por trás da proposta
Os defensores da PEC argumentam que a redução da jornada semanal de
44 para 40 horas não representa apenas medida trabalhista, mas política
de desenvolvimento econômico.
Estudos citados pelo senador Paulo Paim, elaborados por instituições como Dieese, Unicamp e DIAP,
apontam que a medida poderia gerar até 4,5 milhões de empregos diretos e
indiretos e ampliar significativamente a massa salarial do País.
Os argumentos também se apoiam em experiências internacionais.
Diversos países já reduziram suas jornadas legais de trabalho, entre
esses Portugal, Espanha, França, Bélgica, Alemanha, Chile e Equador. Na
União Europeia, a média semanal gira em torno de 36 horas. Além disso, a
OIT (Organização Internacional do Trabalho) recomenda jornadas de até
40 horas há mais de 9 décadas.
Pesquisas de opinião também indicam amplo respaldo popular à
proposta, reforçando a pressão sobre os senadores em ano pré-eleitoral.
PEC patronal perde força
Se a proposta aprovada pela Câmara avança impulsionada pela
mobilização social, o mesmo não ocorre com a PEC 12/26, articulada pelo
senador Rogério Marinho (PL-RN) como alternativa ao texto defendido
pelas centrais sindicais.
A proposta, que permite ampla flexibilização das relações de
trabalho, remuneração por hora, acordos individuais entre patrões e
empregados e mecanismos que poderiam resultar em remunerações inferiores
ao salário mínimo mensal, enfrenta crescente resistência dentro e fora
do Congresso.
Nos últimos dias, a PEC sofreu revés político relevante: 3 senadores
retiraram suas assinaturas de apoio ao texto. Foram eles os senadores
Zequinha Marinho (Podemos-PA), Cleitinho (Republicanos-MG) e Romário
(PL-RJ).
A perda de apoios enfraquece significativamente a iniciativa
justamente no momento em que cresce a pressão popular pela aprovação da
proposta que reduz a jornada.
Recuos revelam desgaste político
As justificativas apresentadas pelos parlamentares evidenciam o desgaste da PEC.
Zequinha Marinho afirmou que a proposta retirava o sindicato das
negociações trabalhistas, algo que, segundo ele, não poderia ser
admitido.
Romário declarou que decidiu retirar a assinatura dele após constatar
que a proposta passou a ser percebida por amplos setores da sociedade
como prejudicial aos trabalhadores.
Cleitinho, em discurso no Senado, disse que assinou o texto por
cortesia política a colegas parlamentares, mas reconheceu o erro e
passou a defender a tramitação célere da PEC aprovada pela Câmara. O
senador mineiro relatou ainda ter recebido forte reação dos próprios
apoiadores após aderir à proposta.
Nas redes digitais e nos movimentos sindicais, a PEC 12/26, a
proposta bolsonarista e patronal passou a ser chamada de “PEC da
Escravidão”, expressão que sintetiza a rejeição construída em torno da
iniciativa.
Senado diante da escolha
A disputa que chega ao Senado vai muito além de discussão técnica sobre jornada de trabalho.
De um lado, está a proposta aprovada pela Câmara, que reduz a jornada
semanal para 40 horas e elimina a escala 6×1, alinhando o Brasil à
tendência observada em diversas economias desenvolvidas.
De outro, está a agenda de mais precarização das relações de trabalho
baseada na prevalência da negociação individual entre empregado e
empregador.
O enfraquecimento da PEC 12/26 e a crescente mobilização das centrais
sindicais alteraram a correlação de forças em favor da proposta
aprovada pelos deputados por ampla margem de votos, em 2 turnos.
Agora, a decisão está nas mãos do Senado. E, diante da pressão das
ruas, das redes e do calendário eleitoral, o debate sobre a jornada de
trabalho promete se tornar uma das principais disputas políticas e
sociais do País nos próximos meses.
FONTE: DIAP
https://www.diap.org.br/index.php/noticias/noticias/92976-fim-da-escala-6-1-ganha-forca-no-senado-enquanto-pec-patronal-perde-apoio-e-entra-em-declinio