Segundo o Ministério Público do Trabalho, país deixou de arrecadar 100 R$ bilhões por conta desse modelo de contratação
Para Reginaldo, a Pejotização reduz drasticamente a arrecadação
Debatedores criticaram nesta terça-feira (28), em audiência pública na Câmara dos Deputados, os efeitos da “pejotização” no mercado de trabalho. O termo se refere à contratação de trabalhadores como empresas – pessoas jurídicas (PJ) – para atividades que antes exigiam carteira assinada. As críticas apontam para a perda de direitos trabalhistas e prejuízos às contas da Previdência Social. Entre os participantes, o presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria (CNTI), José Reginaldo Inácio, neste ato representando o Fórum Sindical de Trabalhadores (FST), reforçou a preocupação com o avanço desse modelo. “ao decidir sobre a validade da pejotização, Tema 1.389, o STF não estará apenas decidindo sobre contratos individuais, na prática, além reduzir drasticamente a arrecadação, também desfinancia diretamente as políticas públicas que protegem o trabalho, inclusive saúde e segurança (SST)”, destacou o presidente.
A audiência girou em torno da decisão do
ministro Gilmar Mendes, do Supremo
Tribunal Federal (STF), que, desde abril
de 2025, determinou a suspensão de todos
os processos que discutem a legalidade
de decisões da Justiça do Trabalho que
reconhecem o vínculo de emprego pela
Consolidação das Leis do Trabalho (CLT)
em casos de "pejotização". A decisão
sobre o Tema 1.389 terá repercussão
geral, servindo de regra para todos os
casos semelhantes no país.
A reunião conjunta sobre o tema nas
comissões de Finanças e Tributação; e de
Trabalho foi proposta pelos deputados
Rogério Correia (PT-MG) e Bohn Gass
(PT-RS). “Eu preciso destacar que o
‘pejotizado’ não tem 13º, férias,
adicionais, aviso prévio nem Fundo de
Garantia”, disse Bohn Gass.
O deputado disse ainda que o adoecimento
de “pejotizados” aumenta os gastos do
país com saúde e assistência social, já
que as empresas privadas deixam de arcar
com parte desses custos. Bohn Gass
ressaltou, por fim, que esses
trabalhadores, atuando como empresas,
deixariam de ter qualquer ganho com o
fim da escala 6X1 (seis de trabalho por
um de descanso).
Rogério Correia reforçou que o modelo
retira direitos básicos e aumenta a
exploração do trabalhador. "É a nítida
exploração de alguém que não tem nenhum
direito e trabalha na função de MEI
[Microempreendedor Individual] ou de
pessoa jurídica", disse. Ele anunciou
ainda que reunirá os argumentos da
reunião para buscar uma audiência com o
ministro Gilmar Mendes.
Sem direitos
Rodrigo Barbosa de Castilho, da Coordenadoria de Combate às Fraudes nas Relações de Trabalho do Ministério Público do Trabalho (MPT), descreveu a pejotização como uma estratégia ilegal que substitui o emprego formal por contratos de serviços para cortar custos e eliminar direitos trabalhistas. "A pejotização é a transformação de um trabalhador com direitos em uma pessoa jurídica sem direitos", disse.
Segundo Castilho, entre 2022 e 2024, o
Brasil deixou de arrecadar cerca de R$
100 bilhões por conta desse modelo de
contratação. “Isso só foi possível
porque 4,8 milhões de empregados CLT se
transformaram em PJ, sendo 3,8 milhões
em MEI”, disse Castilho.
Contas públicas
Além do aspecto social, especialistas apontaram riscos ao orçamento federal. O auditor do Tribunal de Contas da União (TCU) Rafael Lima explicou que a "pejotização" causa desequilíbrio tributário. Segundo ele, um trabalhador com carteira assinada paga até 44,1% de impostos, enquanto quem atua como empresa paga entre 10% e 17%.
O Ministério da Fazenda reforçou que a
queda na arrecadação prejudica serviços
essenciais. Segundo o subsecretário
Rodrigo Toneto, 53% dos MEIs atuais têm
perfil para estar no regime da CLT.
“Inevitavelmente isso vai gerar estradas
piores, piores incentivos para a
agricultura, piores serviços sociais”,
disse.
Conflito jurídico
O debate também abordou a disputa de competências no Judiciário. Enquanto a Justiça do Trabalho costuma reconhecer o vínculo de emprego, considerando que o contrato de empresa serve apenas para camuflar a relação de subordinação no trabalho, o Supremo tem derrubado essas decisões, validando os contratos de prestação de serviço em nome da liberdade de contratar.
Secretário de assuntos jurídicos da CUT,
Valeir Ertle criticou a atuação do
Supremo. Para ele, o STF presta um
"desserviço" ao aceitar julgar
diretamente decisões de primeira
instância. Ertle destacou que a
substituição de contratos com vínculo
por modelos de empresa, quando há
subordinação e habitualidade, prejudica
a proteção social dos trabalhadores.
Marco Aurélio Treviso defendeu que a
Justiça do Trabalho analise todas as
relações de trabalho humano, destacando
que a Justiça Comum deve atuar apenas de
forma residual.
"Quem deve analisar se nós estamos
diante ou não de uma fraude é o ramo do
poder judiciário criado pelo legislador
constitucional para a apreciação dessa
matéria", disse Treviso, que representou
a Associação Nacional das Magistradas e
dos Magistrados da Justiça do Trabalho.
Com Agência Câmara
FONTE: Blog de Notícias da CNTI - https://cnti.org.br



