Investidas da extrema-direita contra o STF é estratégia de deslegitimação institucional, amplificada pela mídia e agravada por divisões no tribunal
Marcos Verlaine*
O Supremo Tribunal Federal tornou-se alvo
estratégico da extrema-direita, o que explica porque
a escalada de ataques à Corte não é episódica nem
tampouco espontânea. Ao agir assim, esse campo
político revela profundo desprezo pela democracia e
pelo Estado de Direito. Diante disso, cabe aos
democratas enfrentar esse movimento de forma
contínua e determinada.
Trata-se, pois, de estratégia política consistente:
enfraquecer a instituição que, nos momentos mais
críticos recentes, funcionou e tem funcionado como
anteparo às investidas contra a ordem democrática.
Ao assumir protagonismo no enfrentamento a atos
antidemocráticos — especialmente após os
desdobramentos dos ataques de 8 de janeiro de 2023 —
o STF passou a ocupar, para a extrema-direita, o
papel de o inimigo central, que deve ser combatido e
destruído.
A escolha não é trivial. Ao deslocar o foco para o
Judiciário, esses grupos buscam tensionar a
legitimidade de decisões judiciais, politizar a
atuação da Corte e, em última instância,
reconfigurar os limites institucionais do Estado de
Direito.
Retórica política e cálculo eleitoral
É nesse contexto que se insere a atuação, dentre outros, do ex-governador Romeu Zema (Novo), que é pré-candidato à Presidência da República.
Ao intensificar críticas ao STF — incluindo a
produção de conteúdos que ironizam ministros e a
promessa de “novo Supremo” —, o pré-candidato parece
operar em 2 frentes simultâneas: de um lado, dialoga
com base eleitoral já predisposta à desconfiança
institucional; de outro, amplia a visibilidade no
cenário nacional.
O cálculo, assim, é político e eleitoral.
A retórica, no entanto, não é neutra. Ao associar
ministros a práticas ilícitas ou sugerir ruptura na
configuração da Corte, o discurso ultrapassa o campo
da crítica legítima e adentra zona de tensionamento
institucional perigosa.
A reação de integrantes do próprio STF, como a
movimentação envolvendo Gilmar Mendes, evidencia que
essas declarações não são vistas apenas como
posicionamentos políticos, mas como potenciais
vetores de desinformação e deslegitimação da
instituição que protege a Constituição.
Papel ambíguo da imprensa
Parte da imprensa brasileira, ao amplificar essas declarações sem o devido filtro crítico, contribui para a escalada do conflito.
Não se trata de defender silêncio ou censura —
pilares incompatíveis com a democracia —, mas de
reconhecer que a mediação jornalística carrega
responsabilidade editorial.
Quando ataques institucionais são reproduzidos como
mera controvérsia política, sem contextualização
adequada, cria-se ambiente em que a excepcionalidade
vira rotina e a crítica destrutiva ganha status de
debate legítimo.
O resultado é a erosão gradual da confiança pública
nas instituições.
Divisão interna e dilema do STF
A resposta do STF a esse cenário está longe de ser homogênea. Há, no interior da Corte, divisão relevante e incomoda: parte dos ministros defende reação mais incisiva, com uso ampliado de instrumentos legais para conter ataques; outra ala prefere postura mais contida, temendo que o enfrentamento direto alimente ainda mais o discurso de politização do Judiciário.
O fato é que esses ataques têm se intensificado e,
diante das divisões internas, a Corte muitas vezes
não consegue oferecer respostas à altura. Nem aos
golpistas de ocasião, nem tampouco à própria
sociedade.
Esse impasse revela dilema estrutural. Reagir de
forma dura pode reforçar acusações de ativismo; agir
com discrição pode ser interpretado como fragilidade
institucional. Em ambos os casos, o custo político é
elevado.
Assim, será preciso encontrar a média correta entre
ambos os dilemas colocados como desafio.
Entre resistência e desgaste institucional
O STF permanece, de fato, como um dos principais pilares de contenção de rupturas institucionais no Brasil recente. Mas essa centralidade tem preço: quanto mais a Corte atua, mais se expõe ao embate político.
E quanto mais se expõe mais necessita de equilíbrio
interno, na imprensa, nos amplos setores
democráticos, e inclui-se aí o governo.
O que está em jogo, portanto, não é apenas a imagem
do tribunal, mas o próprio equilíbrio entre os
Poderes. A normalização de ataques sistemáticos ao
Supremo — especialmente quando instrumentalizados
por projetos eleitorais — aponta para risco mais
amplo: o de que a crítica legítima seja substituída
por lógica de corrosão institucional.
Nesse ambiente, a defesa da democracia deixa de ser
consenso básico e passa a ser objeto de disputa, que
é sinal de alerta que o País não pode ignorar.
*Jornalista, analista político e assessor
parlamentar do Diap
Fonte: Diap - Do Blog de Noticias da CNTI - https://cnti.org.br
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