Por Hora do Povo

Edifício-Sede do Banco Central em Brasília. Foto: Marcello Casal Jr - Agência Brasil
Com a nova alta da taxa básica de juros da economia (Selic) para
13,75%, na última quarta-feira (3), pelo Comitê de Política Monetária
(Copom) do Banco Central (BC), os juros reais, isto é descontada a
inflação, atingiram 8,52% ao ano.
O Brasil é o líder no ranking mundial de juros reais, tendo mais que o
dobro da taxa do 2º colocado, México (4,20%), segundo levantamento
feito pelo G1 com dados compilados pelo MoneYou e pela Infinity Asset
Management.
A taxa de juros real é calculada com abatimento da inflação prevista
para os próximos 12 meses, sendo considerada uma medida melhor para
comparação com outros países. Veja abaixo o ranking:
Com os sucessivos aumentos na Selic, o governo Bolsonaro retirou
recursos públicos do povo e transferiu a bancos e demais rentistas, a
título de juros da dívida pública, a soma de R$ 500 bilhões nos últimos
12 meses encerrados em maio, de acordo com informações do Banco Central.
Esse é o maior patamar desde fevereiro de 2016, época que atingiu R$
513 bilhões.
Os atuais R$ 500 bilhões representam 5,51% do PIB, porcentagem mais
alta desde novembro de 2018 (5,52%). O pico, também na comparação com o
PIB, foi em janeiro de 2016 (9% do PIB).
ANALISTAS: “JUROS ALTOS AGRAVAM A CRISE ECONÔMICA”
O economista José Luis Oreiro afirma que “não existe pressão de
demanda sobre a economia brasileira” que justifique os aumentos da taxa
de juros. “A inflação é um problema de choque de oferta persistente, mas
não permanente”, disse o professor da Universidade de Brasília (UNB).
“Há inflação de alimentos e de energia subindo, por conta de uma série
de eventos que persistem no tempo, como: a guerra da Rússia e da
Ucrânia, como os efeitos ainda da Covid-19 sobre a cadeia mundial de
suplementos”. “Quer dizer, esses efeitos estão durando mais do que a
gente havia esperado”, avaliou.
“Aí o que nos leva a questão de qual é a economia política que está
por trás do aumento dos juros. A única razão que eu vejo, é que se trata
de um governo que está em fim de mandato”, observou Oreiro, ao afirmar
que “o setor financeiro, que tem uma relação carnal com o Banco Central,
está se aproveitando dos últimos meses que restam do seu domínio
absoluto sobre o Banco Central para fazer a maior extração de renda
possível”. “Estão aproveitando que o governo está acabando para tirar o
máximo proveito possível. É puro saque à economia do país”, apontou.
O economista Nelson Marconi avalia que “a alta dos juros só
prejudicará mais nossa combalida economia e as pessoas endividadas”,
disse o professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Ele também
considera que o processo inflacionário que o Brasil vive não é provocado
por excesso de demanda. “O que influiria mesmo na redução da inflação
seria a mudança da política de preços da Petrobrás e investimentos em
energia, não a alta dos juros”, defendeu.
Antonio Corrêa de Lacerda, que é presidente do Conselho Federal de
Economia (Cofecon), destaca que “com os juros nas alturas, o crédito
fica proibitivo. Isso inviabiliza as empresas, inviabiliza as pessoas e o
próprio Estado brasileiro é onerado”, lembrou o professor da PUC/SP.
“A inflação que nós sofremos hoje vem de causas que não têm a ver com
o aumento da demanda”, também avaliou. “Estamos vivendo uma situação
absolutamente esquizofrênica, do ponto de vista da economia”. “A
economia vai mal, o desemprego é muito elevado, as empresas estão
quebrando, as famílias estão endividadas e muita gente passa fome, e o
Banco Central elevando a taxa de juros, o que vai agravar estas
situações”, criticou Corrêa de Lacerda.
Para Fausto Augusto Junior, que é diretor técnico do Departamento
Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), o
aumento da taxa de juros compromete o crescimento econômico e a
qualidade de vida das pessoas.
“Aumentar a taxa de juros é encarecer cada vez mais a vida da
população, porque quando a taxa de juros aumenta, fica cada vez mais
difícil você acessar algum bem por meio do crédito. O cartão de crédito
chega nesses valores exorbitantes que a gente tem aí de taxa de juros. O
cheque especial é a mesma coisa. De novo o que é mais um mecanismo de
transferência de renda dos mais pobres para os mais ricos”, observou
Fausto Júnior.
“Além disso, a gente vai assistindo mais um movimento para esfriar a
economia. Uma economia que está bastante desaquecida já, com a taxa de
desemprego com mais de 10 milhões de pessoas. Uma economia que não
consegue gerar emprego de qualidade. A grande maioria dos empregos
gerados continua sendo empregos ligados a informalidade”.
Ele acrescenta ainda “a renda média do trabalhador caindo, e aí
conforme a taxa de juro vai aumentando, cada vez menos você vai ter
perspectivas de crescimento. De alguma forma a gente vai assistindo em
relação à taxa de juros mais um dos movimentos do atual governo de
ampliação das desigualdades no Brasil.
FONTE: Jornal Hora do Povo