São
Paulo – No primeiro semestre deste ano, os veículos leves eletrificados
– os chamados carros híbridos – tiveram 20.427 unidades vendidas, 47% a
mais que em igual período de 2021, segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico
(ABVE). Apenas os carros 100% elétricos somaram 3.395 emplacamentos,
19% a mais do que todo o ano passado. Assim, a participação desses
modelos vem crescendo no mercado, aumentando o desafio para o Brasil no
sentido de atualizar suas linhas, sob uma perspectiva nacional, em busca
de modelos sustentáveis do ponto de vista ambiental, econômico e
social.
Para o montador Wellington Messias Damasceno, funcionário
da Volkswagen desde 2001 e diretor de Políticas Industriais do
Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, o país está atrasado nesse debate e
pode pagar por isso em termos de competição, emprego e desenvolvimento.
“Pela importância que tem, tanto na produção global de veículos como no
consumo, o Brasil não pode ficar fora do debate da eletrificação, dos
carros híbridos. A omissão do governo é um problema que nós vamos ter no
futuro. Esse debate deveria estar mais avançado, para mostrar onde o
país vai se inserir no setor automotivo e nas estratégias de
descarbonização”, afirma.
Modelo de transição
Apostar
inicialmente em um modelo híbrido, movido a etanol, por exemplo, é uma
forma de não ser excluído do debate, mesmo que isso retarde a
eletrificação em si. Um projeto que poderia ser desenvolvido pelas
universidades brasileiras e centros de pesquisa, aproveitando um
combustível surgido aqui. E menos poluente do que um elétrico puro na
Europa, dependente de termelétricas, diz Wellinton.
“Fazendo
essa transição, a gente se insere na eletrificação, valoriza a pesquisa
nacional, usa um combustível que já está pronto”, argumenta. Dessa
forma, seria possível avançar com cautela. Considerando, por exemplo,
que um veículo elétrico tem 60% a menos de componentes do que o movido a
combustão, segundo dado da subseção do Dieese no Sindicato dos
Metalúrgicos. O que, feito abruptamente, poderia provocar um “desemprego
absurdo”, observa o dirigente. Ainda mais quando se lembra que boa
parte dos novos componentes é feita fora daqui.
Várias tecnologias
Assim,
enquanto produzisse o híbrido a etanol, o país estaria desenvolvendo
uma rede de eletropostos. “É um desenho que o Brasil pode se
projetar. Não podemos ter políticas excludentes. A gente pode conviver
com diversas tecnologias ao mesmo tempo. O que não podemos é não ter
essas tecnologias. Podemos perder um bonde, e ter só importação de carro
elétrico”, adverte Wellington.
Esse bonde já está em movimento.
Em Jacareí, no interior paulista, a Caoa Chery demitiu a maior parte dos
funcionários (485, de um total de 627) para fechar a fábrica até 2025,
preparando a linha para a produção de modelos híbridos e elétricos. Em
nível global, a Volkswagen pretende lançar 130 veículos nos próximos
seis anos, sendo 70 elétricos e 60 híbridos. Na semana que passou, os
metalúrgicos de Taubaté, também no interior paulista, aprovaram acordo que inclui um novo modelo na fábrica, igualmente a partir de 2025.
Trabalhadores e empresários
Entre
trabalhadores e empresários, o debate não parou. Várias reuniões já
foram organizadas envolvendo metalúrgicos, empresas como Volks, Toyota e
a Unica, que reúne as produtoras de cana de açúcar. Discutindo temas
como áreas de plantio, produtividade, impacto no setor de autopeças,
pesquisa e desenvolvimento.
E um desafio adicional nos dias de
hoje: incluir a pauta nos projetos oficiais. O que é mais difícil quando
qualquer tema relativo a política industrial passou longe do atual
governo. “Enquanto o Brasil não tem política estruturada nesse sentido,
está todo mundo produzindo motor de combustão.” Se houvesse uma política
de longo prazo, a Ford, por exemplo, poderia ter permanecido,
considerando as dimensões do mercado brasileiro.
Hoje, se as
montadoras brasileiras resolvessem produzir carros elétricos, seria
necessário criar fábricas de baterias (se a decisão fosse por
fabricá-las aqui). Mas são muitas questões a considerar até a
implementação de uma política estruturada que avance na eletrificação
veicular e na descarbonização do setor automobilístico.
Wellington
cita algumas: metas de desenvolvimento e pesquisa, aproveitamento dos
potenciais brasileiros, qualificação profissional, investimento e
crédito, adaptação de eletropostos. “Temos totais condições de fazer
isso”, afirma, questionando “se isso vai ser feito em benefício da
população ou se essas políticas vão simplesmente ser importadas”.
De
janeiro a maio, a produção automotiva total no Brasil somou 888,1 mil
unidades, 9,5% a menos do que em igual período de 2021. Foram
licenciados 740 mil veículos, queda de 17%. Os dados são da Anfavea, a associação nacional dos fabricantes.
Os
modelos flex representam 81,6% das vendas e os carros híbridos, 2%. Por
sua vez, os elétricos correspondem a 0,3% do total. A indústria tem
101.833 empregados, número praticamente estável no ano e 2,2% a menos em
12 meses.
FONTE: Rede Brasil Atual
https://www.redebrasilatual.com.br/economia/2022/07/brasil-perde-bonde-mundial-carros-hibridos/